Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos

Philippe Widling / Getty

MENDOZA: GUIA DE VIAGEM

Chega esta época do ano, quando o verão começa a se aproximar de seu ocaso, e os brasileiros que amam vinhos têm um um motivo a mais para planejar uma viagem até Mendoza, na Argentina: é tempo de colheita!

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Adoro escapar para Mendoza, independentemente da época do ano, porque adoro vinhos e adoro argentinos.

Sobretudo, adoro vinhos argentinos, especialmente os que vão além daqueles Malbecs esteotipados, pesados e excessivamente frutados.

Desta última vez, estive em Mendoza a convite da Casa Flora, para visitar as vinícolas Nieto Senetiner e Ruca Malen e tive boas surpresas, como um incrível varietal de Petit Verdot e um ótimo restaurante gastronômico no interior de uma dessas bodegas.

Vamos falar sobre tudo isso, mas antes vou traçar um guia super básico para começar a explorar Mendoza.

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MENDOZA URBANA

Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos
Foto Luciana Lancellotti

A cidade de Mendoza tem avenidas e calçadas largas, muitas áreas verdes e, claro, cafés que se multiplicam pelos bairros, como pede a tradição argentina.

As 52 praças, agradabilíssimas, são um traço marcante da cidade. A maior parte delas foi projetada para servir de área de fuga, após um terremoto abalar a cidade em março de 1861, matando quase 5 mil pessoas. E, pasme (ou morra de inveja): para os 900 mil habitantes da região metropolitana da Grande Mendoza, há cerca de 1 milhão de árvores plantadas.

Fora isso, há ainda mais três parques, sendo o principal deles o incrível Parque General San Martín, com seus 17 km de área verde, com suas fontes, lago e portões monumentais.

A população da cidade de Mendoza não chega a 115 mil habitantes. Caminhar pelas calçadas locais traz uma incrível sensação de bem estar – paira, sobre as ruas, uma intrigante atmosfera vintage, resultante da combinação de referências Art Deco e um certo ar sessentista.

Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos
Ciudaddemendoza.gov.ar

Chove pouquíssimo na região – estamos falando de uma área semi-desértica, onde a chuva só dá o ar da graça cerca de três vezes por ano, e olhe lá.

As ruas e estradas são ladeadas pelas acéquias, como são chamadas as canaletas de irrigação, com águas provenientes de rios formados pelo degelo da Cordilheira. É, aliás, com essa água que as videiras, de forma geral, são irrigadas, possibilitando o negócio da produção de vinhos na região.

Por essas e outras, Mendoza pode ser considerada um oásis – e eu mal comecei a falar sobre vinhos…

MENDOZA E O VINHO

Para chegar às vinícolas, é preciso pegar a estrada, desenhada sob o olhar atento de La Cordillera, formando a paisagem imponente que você vê abaixo.

Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos
Foto Luciana Lancellotti

As esticadas até as bodegas são curtinhas – podem durar uns 20 minutos –, ou um pouco maiores, com uma hora de duração, em média. Tenha em mente que as vinícolas ficam bem distantes umas das outras e o melhor a fazer é reservar duas ou três, no máximo, para visitar por dia.

Nessa área de quase 160 mil hectares de vinhedos na região fronteiriça com o Chile, são cultivadas cerca de 75% das uvas na Argentina. Esse número alça Mendoza à posição de principal região vitivinícola do país, à frente de Salta, Córdoba e San Juan.

LAR, DOCE LAR DA MALBEC

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Sabemos que a uva Malbec tem origem francesa. Mas foi em Mendoza que a variedade desenvolveu sua melhor expressão, traduzindo nuances interessantíssimas do terroir local e chamando a atenção do mundo do vinho.

A notoriedade internacional emergiu sobretudo ao longo das últimas duas últimas décadas, o que resultou em um investimento substancial na região, com direito a vinícolas projetadas com requinte arquitetônico, onde os vinhos são produzidos com tecnologia de ponta, sob a batuta de grandes nomes.

Entre eles está o polêmico enólogo francês Michel Rolland, que semeou nessas terras o projeto Clos de Los Siete, ao lado de outros seis sócios. Isso para não falar de Nicolas CatenaSusana Balbo, os irmãos Hugo e Eduardo Pulenta, entre vários outros.

Nessa girada de taça, novos aromas afloraram e o setor de hospedagem viu fermentar, avidamente, um sem-número de hotéis para todos os públicos: desde as hospedarias com aspecto rural e charmoso, até os hotéis boutique e os mais modernos e luxuosos.

A gastronomia também ganhou novos ares e hoje conta com excelentes restaurantes – a jóia da coroa é o 1884, comandado por Francis Mallmann. O chef está, também, à frente do Siete Fuegos, sua mais recente iniciativa gastronômica na região, no interior do The Vines Resort & Spa, no Vale de Uco.

TERROIR

Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos
Foto Luciana Lancellotti


Mendoza
tem cinco subregiões principais, com características diferentes de clima, altitude e solo, entre outros fatores:

  • Luján de Cuyo
  • Maipú (não confundir com Maipo, no Chile)
  • Vale de Uco
  • San Rafael e San Martin
Se San Rafael e San Martin são historicamente importantes, são as outras três subregiões que melhor representam, atualmente, o crescimento da indústria do vinho em Mendoza e, consequentemente, na Argentina.
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O Vale de Uco pode ser considerado uma região em clara ascensão na produção de vinhos em Mendoza e, junto com Luján de Cuyo – a mais antiga Denominação de Origem da região (1993) – produz os Malbecs premium do país. Se a maior parte das vinícolas e hotéis mendocinos se encontra, hoje, em Luján, nos últimos anos o Vale de Uco passou a acolher vários dos hotéis e empreendimentos vinícolas mais luxuosos de Mendoza.
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Maipú, a 16 km da capital da província, não é tão famosa quanto Luján de Cuyo e Vale de Uco, mas apresenta excelente terroir para a Malbec e possui características de chuva e irrigação iguais às de Luján.

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 CASTAS

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Entre as castas cultivadas em Mendoza, a Malbec reina absoluta, prioritariamente em Luján de Cuyo e em suas microrregiões, como Agrelo, Chacras de Coria e Vistalba.

Outras cepas tintas bordalesas também são cultivadas na região, como Merlot, Cabernet Sauvignon, Petit Verdot e Cabernet Franc. Entre as brancas, ganham destaque  Torrontés, Viognier, Sauvignon Blanc e Chardonnay.

MENDOZA: GUIA DE VIAGEM | COMO CHEGAR

O Aeroporto Internacional de Mendoza – El Plumerillo (MDZ) acaba de ser reformado e há voos diretos operados pela GOL. A duração é de 3h55.

Outras companhias, como a LATAM e a Aerolíneas Argentinas operam voos com escala em Buenos Aires e Santiago do Chile.

De carro, é possível partir de Buenos Aires rumo a Mendoza via Ruta Nacional 7 – as duas cidades estão separadas por 1000 km. Prepare-se para encarar pouco mais do que 12 horas de viagem, mas saiba que a qualidade da estrada é ótima e o custo dos pedágios é baixo..

Muita gente prefere visitar Santiago do Chile e esticar de carro até Mendoza. Neste caso, a viagem passa pela Cordilheira e dura pouco mais do que cinco horas, mas é preciso considerar a burocracia da fronteira entre os dois países, o que pode elevar o tempo de viagem.

MENDOZA: GUIA DE VIAGEM | INFORMAÇÕES ÚTEIS

Idioma: espanhol, mas muitas vinícolas organizam passeios guiados em português.

Fuso horário padrão: UTC/GMT -3 horas, assim como em Brasília.

DDI/DDD – O código da Argentina é 54 e da área de Mendoza, 261.

Moeda: Peso argentino. Confira a conversão de moedas no site do Banco Central.

Documentos necessários: Brasileiros têm acesso à Argentina portando o RG (com data de expedição inferior a 10 anos) ou com o passaporte dentro da data da validade.

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Leia a série sobre Mendoza

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  1. Informações gerais sobre Mendoza
  2. Visita à bodega Ruca Malen, em Agrelo
  3. Em Mendoza, o melhor restaurante em vinícola do mundo 
  4. Visita à bodega Nieto Senetiner, em Vistalba
  5. Os melhores hotéis de Mendoza
  6. Os melhores restaurantes de Mendoza, por Hervé BirnieScott

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Mendoza: guia de viagem para quem ama vinhos
Jornalista e consultora nas áreas de gastronomia e viagem, atualmente diretora de redação da revista Wine.com.br, publicação sobre vinhos de maior tiragem do Brasil. Foi crítica de restaurantes da revista Playboy, repórter e apresentadora na Rede Globo, Record e TV Cultura.
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