Rosh Hashaná por Andrea Kaufmann

Maçãs mel e romã
Foto: Getty

Sempre cultivei curiosidade pelas tradições judaicas, especialmente pela culinária, tão cheia de significados. E uma das pessoas que melhor tratou comigo sobre o assunto foi a chef Andrea Kaufmann, do extinto restaurante paulistano AK Vila, para uma reportagem publicada na revista Prazeres da Mesa sobre as tradições e significados de alimentos do Rosh Hashaná.

+ Confira receitas preparadas com apenas 4 Ingredientes

Achei oportuno reproduzir as palavras da chef sobre suas recordações da infância durante o Rosh Hashaná. Confira nas linhas abaixo.

Significado dos alimentos no Rosh Hashaná

RENOVAÇÃO

Rosh Hashaná por Andrea Kaufmann“Rosh Hashaná é o Ano Novo Judaico, a celebração da renovação da vida, uma data de festas familiares e reflexão. Nesse período, durante as orações na sinagoga, tudo muda, todos os rabinos se vestem de branco, até mesmo os rolos da Torá são cobertos por essa cor, que representa a pureza. Depois, as famílias seguem para casa e começa a comilança já que, sempre que falamos em judaísmo, as celebrações acontecem em volta da mesa e cada prato tem seu significado. O alimento mais simbólico é a maçã, que representa o início, remete à história de Adão e Eva. Servida com mel, ela também traz o desejo de um ano doce: o mel é muito típico de Israel, tanto que a Terra Prometida é a ‘terra que mana leite e mel’. 

O alimento mais simbólico é a maçã, que representa o início

O início da refeição acontece com uma reza, onde se comem fatias de maçã embebidas em mel e também o pão. O pão servido no Rosh Hashaná, aliás, é diferente do Chalá trançado, consumido no Shabat. As chalot (plural de chalá) do Rosh Hashaná têm formato redondo, que representa a continuidade e a eternidade, já que o círculo não tem começo nem fim, nem ângulos nem arestas: um pedido para um ano sem conflitos. Essa chalá tem duas receitas, a doce e a salgada. Mas, geralmente, a parte da celebração é feita com a doce.

Além do mel e da chalá doce, há vários outros pratos adocicados. O tzimmes, por exemplo, é um guisado doce de cenouras, cortadas em rodelas, que lembram moedas. Esse prato representa o desejo de se ter um ano doce, com abundância, multiplicação.

Significado dos alimentos no Rosh Hashaná

RITUAIS DE FAMÍLIA

Serve-se também peixe, porque ele só nada para frente – essa é uma tradição forte porque é assim que desejamos que o ano aconteça. Outro costume importante: a cabeça do peixe é sempre servida à pessoa mais velha da família. E cada família tem seu próprio ritual.

Para a minha família, além do peixe inteiro, é obrigatória a vitela, seguida de alguns pratos de sabor adocicado

A minha vem da Polônia, Alemanha e Hungria e tem costumes diferentes dos judeus sefaradis (originários da Península Ibérica). Nós voltamos da sinagoga e, depois da reza e da maçã com mel, começamos com os patês: de fígado, ovo cozido, pepino, arenque e uns pasteizinhos servidos com gefilte fish (bolinhos de peixe com raiz forte). Esses patês são servidos com a chalá doce que sobrou da reza, geralmente com mais uma chalá, salgada. Então são servidos pratos maiores.

Para a minha família, além do peixe inteiro, é obrigatória a vitela, seguida de alguns pratos de sabor adocicado.  Depois da refeição tem o caldo com kneidalech (bolinhos de farinha de matzá). E na hora da sobremesa, é comum ter maçã também – geralmente uma torta. Mas é raro eu conseguir chegar à parte dos doces, de tanto que costumo comer…

Significado dos alimentos no Rosh Hashaná

FRUTAS E COMPOTAS

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Quando recordo minha infância, é muito forte a lembrança de minha avó materna, alemã, preparando a torta de maçã, com chantilly, para o Rosh Hashaná. Ela também fazia frutas em compota, normalmente damascos, tâmaras e maçãs. Sempre preferi as compotas feitas apenas com frutas secas, sem maçãs e peras, que têm textura mais mole. Até por isso, as compotas que preparo hoje são feitas somente com frutas secas reidratadas de tanto pedir, comecei a fazer eu mesma e passei a colocar vinhos nas frutas. Comecei com os que ela tinha na cozinha, depois mudei para os vinhos de sobremesa. Então adotei o Tokaj e minha outra avó, húngara, ficava feliz. É assim, inclusive, que preparo a compota de frutas secas até hoje.

Minha avó materna sempre ficou responsável pelo gefilte fish e eu acompanhava o preparo na cozinha

Antes do período de festas, há sempre algumas situações típicas, como a tradicional briga de Rosh Hashaná e Yom Kippur (Dia do Perdão, que acontece dez dias depois): quem vai passar com quem, na casa de quem… Sem contar a Pessach (Páscoa Judaica). Depois, resolvido o impasse, a dúvida passa a ser quem vai cozinhar o quê: ‘quem prepara o gefilte fish? E as pastas?’ Minha avó materna sempre ficou responsável pelo gefilte fish e eu acompanhava o preparo na cozinha, com minha boneca. Enquanto eu brincava, observava tudo. Mais tarde, já com 7 ou 8 anos, ela me deixava tirar as espinhas do peixe. Daí eu já queria mais: pedia para moer. E ela nunca me deixava finalizar as preparações… Acho que por isso acabei escolhendo a minha profissão, já que o chef costuma concluir os pratos. Eu queria logo fazer o mais difícil – quebrar ovos, separar claras de gemas. Mas aos poucos ela foi deixando e, com o tempo, passei a ajudar a minha mãe.

Já minha avó paterna sempre levava tortas típicas húngaras e também o tradicional merengue com morangos. E assim, aos poucos, eu fui experimentando todos os pratos e ficando cada vez mais interessada em gastronomia.

Hoje, sou eu que levo o gefilte fish e as pastas. Mas quem cozinha continua sendo a minha mãe. No primeiro ano de AK Delicatessen, ela fez absolutamente tudo. Porque mãe é mãe, ajuda sempre a filha. Imagine, naquela loucura toda, ter que fazer mais de sessenta gefilte fish e ainda conciliar com o trabalho no restaurante, que funciona normalmente nessa data…”

Significado dos alimentos no Rosh Hashaná

RECEITAS

 

 Chalá Redonda

*  15 gr de fermento biológico seco
*  50 gr de açúcar
*  250 ml de água morna
*  500 gr de farinha de trigo
*  30  ml  de  óleo
*  25 gr de manteiga
*  25 gr de iogurte
*  2   ovos ligeiramente batidos
*  1 pitada de açúcar
*  1 pitada de sal
*  Sementes de papoula para finalizar
*  1 gema de ovo caipira para pincelar
*  10 gr de mel (1 fio)
*  5 ml de azeite

1. Forre o fundo de um bowl com um pouco de farinha e faça uma depressão.
2. Adicione o fermento diluído em ½ copo de água morna com açúcar.
3. Cubra e deixe em um lugar protegido, coberto, até rachar a farinha.
4. Acrescente, então, os líquidos: os ovos, o iogurte e o óleo.
5. Misture bem até virar uma massa homogênea.
6. Deixe descansar em um bowl até dobrar de volume.
7. Faça duas tranças e deixe crescer.
8. Pincele as tranças com a mistura de gema, mel, azeite e papoula.
9. Asse em forno a 170º – 180º C, por aproximadamente 40 minutos.
10. Para dar formato ao pão, faça uma grande ?salsicha? com a massa.
11. Prenda a base do pão e  faça movimentos de ascensão, obtendo um formato arredondado.

Para a Chalá doce, acrescente 1 xícara de uvas passas e 6 colheres de vinho Marsala e adicione as passas demolhadas no Marsala depois dos ingredientes líqudos. Prossiga o preparo da mesma forma.

Stinco de Vitela ao molho de damascos e couscous oriental
(4 porções)

*  2 kg de stinco (4 partes de 500 gr)
*  300 gr de cebola picada
*  200 gr de salsão picado
*  200 gr de cenoura picada
*  100 gr de damascos
*  50 gr de óleo
* caldo de vitela 4 litros
* sal/pim/pimenta síria

Couscous Marroquino Oriental

*  2 xícaras de couscous
*  2 xícaras de líquido (água ou caldo)
*  1 dente de alho picado
*  gengibre (1 c.s)
*  pimenta dedo de moça
*  açafrão
*  ervas a gosto
*  coentro/canela

Stinco

1Tempere  os stincos com sal e pimenta síria e sele-os em fogo alto, até dourá-los.
2 Retire-os e disponha-os em um prato.
3 Na mesma panela, refogue o mirepoix (mistura de salsão, cebola e cenoura).
4 Acrescente o caldo e a vitela.
5 Deixe cozinhar por cerca de três horas.
6 Ao final do cozimento, adicione os damascos.

Couscous
1 Hidrate o couscous com o caldo.
2 Após 5 minutos, solte os grãos com um garfo.
3 Salteie na frigideira aquecida com alho, gengibre e pimenta

* Sugestão de harmonização para a vitela: vinho Cune Crianza, 2004, feito da uva
Tempranillo, na região de Rioja, Espanha. Um vinho intenso, de médio
corpo e envelhecido. Sua acidez combina com a Vitela com molho de
damasco.Tem aroma frutado intenso.

Compota de frutas secas
(1 pote médio)

*  100g de figos secos
*  100g de ameixas secas e sem caroço
*  60g de damascos secos e ácidos
*  100g de passas brancas sem sementes
*  3 copos de água
*  2 rodelas de limão
*  2 paus de canela
*  3 colheres de sopa de Tokaj ( pode ser substituído por conhaque)

1 Coloque todos os ingredientes, menos o Tokaj, em uma panela, e leve ao fogo.
2 Quando começar a ferver, tampe e cozinhe durante cerca de 20 minutos.
3 Junte o conhaque e cozinhe por mais dois minutos.
4 Sirva a compota morna ou fria.

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Rosh Hashaná por Andrea Kaufmann
Jornalista e consultora nas áreas de gastronomia e viagem, atualmente diretora de redação da revista Wine.com.br, publicação sobre vinhos de maior tiragem do Brasil. Foi crítica de restaurantes da revista Playboy, repórter e apresentadora na Rede Globo, Record e TV Cultura.
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