O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas

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O fruitcake inglês é uma tradição de gerações e tem a capacidade de atravessar séculos – neste caso, é um pedaço da história em forma de bolo

Você pagaria por um pedaço de bolo preparado há 40 anos? Pois muita gente faria isso. Claro que não se trata de um bolo qualquer, mas do bolo de casamento de Charles e Diana, que aconteceu há exatas quatro décadas atrás. Ainda que o casamento tenha tomado rumos bem diferentes de um conto de fadas, o marco está aí para ser lembrado. Afinal de contas, estima-se que 750 milhões de pessoas em todo o planeta tenham assistido ao casamento do século naquele 29 de julho de 1981.

E foi em meio às incontáveis menções das últimas semanas aos 40 anos das núpcias reais que foi divulgado o leilão de um pedaço do bolo do casamento de Charles e Diana, previsto para o dia 11 de agosto – o lance inicial é estimado em US$ 700.


O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake 
A PEÇA 

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas

Com 20 x 18cm e cerca de 800g, o pedaço de bolo foi entregue a Moyra Smith, uma das funcionárias da Rainha Mãe na Clarence House, em 1981, logo após a cerimônia. A família de Moyra foi proprietária da fatia de bolo até 2008, quando a peça foi adquirida pelo leiloeiro Dominic Winter.

O pedaço do bolo real está perfeitamente protegido, envolto por um filme plástico, e foi conservado nesse tempo todo sob refrigeração

A cobertura leva uma generosa camada de marzipã e outra de glacê, decorada com um brasão real vermelho, azul e dourado.

Embora esta outra foto abaixo não mostre a fatia que vai a leilão, trata-se de um dos pedaços do bolo de casamento de Charles e Diana. E dá pra ter uma ideia da estrutura da massa e da cobertura.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas
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O conjunto de bolos levou 14 semanas para ser preparado.

Para a exibição, os bolos foram totalmente fatiados e colocados em caixas de presente individuais monogramadas. Elas, por sua vez, foram agrupadas e colocadas em caixas maiores pintadas à mão e finalizadas com glacê para formar as camadas decorativas do bolo. Essa unidade, já decorada para exibição, contou com uma cópia idêntica, um bolo gêmeo, como reserva de emergência.

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O chef David Avery, com o bolo real | Arquivo Getty
O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake 
TRADIÇÃO BRITÂNICA

O processo de conservar o bolo de casamento faz parte das tradições que envolvem os fruitcakes, ou bolos de frutas. Na Grã-Bretanha, os noivos costumam guardar o “andar” superior de um fruitcake (de um total de três andares) para comerem até o batismo do primeiro filho do casal.  E presume-se que esse primeiro filho venha após dois anos em média após o casamento.

Bom, não vamos discutir aqui questões jurássicas voltadas a cobranças da sociedade com relação a casamentos, filhos e prazos para tê-los (ou não tê-los). O que interessa neste post é entendermos o porquê do fruitcake durar tanto tempo.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas
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Dito isso, também faz parte da tradição entre os súditos britânicos colecionar fatias de bolos de casamentos da Família Real (aqueles que conseguem obter uma fatia, pelos mais variados motivos) e vendê-los anos ou décadas depois.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas

Vários pedaços de bolos reais já foram arrematados ao longo dos últimos anos. Uma dessas peças foi leiloada pela Christie’s em 2016. Era um pedaço do bolo de casamento da Rainha Vitória, que aconteceu em fevereiro de 1840.

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O bolo do casamento da Rainha Vitória, de 1840 | Getty

Ora, então o fruitcake inglês tem o poder de atravessar séculos!

Ainda assim, Chris Albury, avaliador especialista em memorabília da Dominic Winter, não recomenda seu consumo. Segundo o profissional, do jeito que o bolo chegou aos 40 anos, está claramente destinado a durar. “É uma lembrança curiosa e única que celebra um casamento real, fato que exerce um fascínio duradouro entre os aficionados em realeza britânica em todo o mundo. ”


O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake 
POR QUE O FRUITCAKE DURA TANTO TEMPO?

Quem resolve pesquisar curiosidades sobre o fruitcake descobre fatos pra lá de inusitados. Há casos como o de um bolo de frutas centenário encontrado na Antártica entre artefatos deixados pela expedição do explorador britânico Robert Falcon Scott (1868-1912) em 1910 – o bolo permanece perfeito.

Se você realmente se interessa pelo assunto, não deixe de assistir ao vídeo abaixo, do excelente Mental Floss, que não só mostra o fruitcake encontrado na Antártica, como explora várias características e explica sobre as diferentes versões da receita.

Tem também a história de uma família de Ohio, nos Estados Unidos, que preserva um fruitcake intocado – a não ser para testes periódicos de sabor – desde que foi preparado, em 1878, pela então matriarca Fidelia Ford.

Sabendo desses achados,  é inevitável a pergunta: o que faz o fruit cake preservar suas qualidades por tanto tempo?

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake 
AGENTES DA LONGEVIDADE

Podemos dizer que essa longevidade se deve fundamentalmente aos ingredientes. Diferentemente do que acontece com a maioria dos bolos, o fruitcake tem massa densa, preparada com vários ingredientes já conservados, como frutas secas e cristalizadas.

E sendo secos, esses ingredientes obviamente não fornecem umidade suficiente aos microorganismos para que eles se reproduzam, conforme já explicou em 2014 Ben Chapman, especialista em segurança alimentar da Universidade Estadual da Carolina do Norte. Em outras palavras, a falta de umidade impede o desenvolvimento de bactérias no bolo.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas
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Outra coisa: o álcool ajuda bastante a manter o bolo estável por muitos anos. O processo é o seguinte: assim que o fruitcake esfria, é envolto em um pano de algodão embebido em licor e armazenado, em seguida, em um recipiente hermético. Essa técnica impede o desenvolvimento de mofo e de leveduras na superfície do bolo, além de mantê-lo saborosamente úmido. Leia também o tópico “Alimentando o bolo”, no fim deste post.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas
O fruitcake de Natal da Winscosin Swiss Colony

Como acontece com um bom vinho, o tempo permite que os taninos da fruta amadureçam, de acordo com a  Wisconsin Swiss Colony, especializada em presentes alimentícios. A loja vende fruitcakes de Natal desde os anos 1960, com 70% de sua composição à base de frutas secas e nozes. De acordo com o estabelecimento, à medida que o fruitcake envelhece, fica ainda mais saboroso, porque desenvolve notas complexas que faltam a um bolo de frutas jovem, assim como acontece com vários vinhos.

Sendo assim, não é à toa que muitas receitas de bolo de frutas exigem pelo menos um ano de envelhecimento para desenvolver seu sabor. Em vários lugares, a tradição no Natal é assar um fruitcake enquanto aquele que foi assado no ano anterior está pronto para ser consumido.

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake que duram décadas
O preparo do fruitcake de natal: 70% da composição é de frutas secas e de nozes

O bolo de casamento de Charles e Diana: fatias de fruitcake 
ALIMENTANDO O BOLO

Se você tem planos de guardar por bastante tempo um fruitcake – e deseja que ele preserve e desenvolva as melhores características –, é necessário deixá-lo guardado no armário. Se a ideia for servi-lo dentro de algumas semanas, por exemplo, desembrulhe e escove o fruitcake semanalmente com álcool – conhaque, rum, uísque e Amaretto são opções tradicionais –, até finalmente servi-lo. É o processo de alimentar o bolo. Veja como no vídeo abaixo:

Por isso mesmo, embora muito se discuta por quanto tempo é possível marinar um fruitcake  até consumi-lo – e vários especialistas recomendem um prazo de dois anos para tanto – o fruitcake do casamento de Charles e Diana, assim como o secular bolo de frutas descoberto na Antártica provavelmente teriam um bom sabor se fossem alimentados com bebida alcoólica por alguns dias antes do consumo.

Muito interessante, não?

E uma curiosidade: quando se chama alguém de “fruitcake” em inglês, não se trata de um elogio, mas de dizer que a pessoa está viajando (na maionese) ou que não bate muito bem.

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Jornalista e consultora nas áreas de gastronomia e viagem, não recusa uma taça de um bom Syrah. Editora de Estilo da revista ISTOÉ Dinheiro, foi diretora de redação da revista WINE, crítica de restaurantes da revista Playboy, repórter e apresentadora na Rede Globo São Paulo e TV Cultura.
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