A New Yorker e o Brasil no Oscar

Retratos de Fernanda Torres em preto e branco e Wagner Moura em estética noir dos anos 1970 sobre mesa de madeira, cercados por estatuetas douradas do Oscar, rolos de filme e placas translúcidas em verde, amarelo e azul, simbolizando o Brasil no Oscar e o destaque do cinema brasileiro na temporada de premiações internacionais.
Entre a memória política dos anos 1970 e o presente da temporada de premiações, o Brasil no Oscar ganha rosto, cor e símbolo
Como uma das revistas mais influentes do jornalismo cultural em língua inglesa explicou a virada do cinema brasileiro na premiação

Ainda impactada (e feliz) com o artigo ‘Come to Brazil” The Oscars Just Might, publicado nesta semana na The New Yorker, que mira na febre brasileira nas redes sociais da Academia e no lugar que o cinema nacional vem ocupando na temporada de premiações. Foi assim em 2025, com Ainda Estou Aqui, que consagrou Fernanda Torres no cenário internacional, e agora, em 2026, com O Agente Secreto e Wagner Moura encabeçando os holofotes. Antes mesmo do anúncio das indicações, o Instagram da instituição já estava tomado por brasileiros eufóricos, em fila, em onda, com as bandeirinhas do Brasil abrindo caminho.

Quem vê de fora pode achar que é só bagunça de internet, folclore digital, “brasileiro sendo brasileiro”. Mas não é só isso. É termômetro, presença, uma forma de dizer: “a gente está aqui, e dessa vez não só assistindo a essa festa”.

O texto de usa esse termômetro digital para abordar uma mudança maior: um Oscar mais global, uma campanha que acontece online, e um Brasil que, pelo segundo ano consecutivo, não entra só pela porta do “filme internacional”. O país entra, de fato, na conversa,  indicado em quatro categorias, incluindo a mais importante de todas, Melhor Filme.  “Papo reto”, como dizia meu querido amigo Fernando Paiva.

E é aí que a matéria fica boa: ela não descreve uma euforia, mas uma virada. No fundo, o fio que o texto puxa não é “brasileiro animado com o Oscar”, mas um Oscar que mudou de forma e um Brasil que entendeu o novo formato. Entrou no jogo com repertório e barulho. Aliás, muito barulho. Do nosso jeito.

O artigo da revista, que é referência global em crítica, reportagem e ensaios, sugere que o Oscar mudou estruturalmente, e que isso abriu espaço para outras cinematografias. E a gente, daqui, não só percebeu, como também soube jogar nesse novo tabuleiro, com repertório e com barulho. Durante anos, o Oscar vendeu a ideia de que celebrava o cinema mundial, quando, na prática, era Hollywood conversando consigo mesma, com uma ou outra visita internacional na mesa de canto. Isso foi mudando. Devagar, com pressão, crítica, desgaste público. O texto lembra que, após o movimento #OscarsSoWhite, a Academia ampliou e diversificou seu quadro de votantes, trazendo mais gente de fora dos EUA. Não virou um paraíso, claro. Mas abriu espaço. E espaço, quando aparece, alguém ocupa.

Pois o Brasil ocupou.

Com filme forte, sim. Com cinema que tem linguagem, tema, risco, memória. Mas também com uma coisa muito nossa, que a matéria percebe bem: a capacidade de transformar premiação em assunto nacional. Aqui no Brasil, a gente sabe, não existe “acompanhar de longe”. A gente torce, comenta, discute, defende, ataca, convoca. A gente cria uma segunda transmissão paralela, emocional, caótica, divertida e, muitas vezes, mais interessante que a oficial.

É aí que o “come to Brazil” ganha outra camada.

A frase que se tornou conhecida em forma de apelo, por fãs brasileiros de diferentes artistas estrangeiros (um misto de carência, piada e insistência coletiva), hoje aparece como ferramenta de presença cultural. Ainda tem humor, claro. Ainda tem meme. Mas também tem recado: vocês podem até não nos entender direito, mas vão ter que nos notar.

E tem um ponto mais fundo nisso tudo, no qual a matéria da New Yorker encosta sem transformar em sermão (ainda bem), que é o nosso velho caso com reconhecimento internacional. Essa sensação de que, quando países do Norte Global validam, alguma coisa aqui dentro finalmente assenta. Dá para chamar de complexo de vira-lata, trauma histórico, ou só de cansaço de ser subestimado. Tanto faz. O efeito é conhecido.

Quando um filme brasileiro entra forte na conversa global, não parece só vitória de cinema. Parece acerto de contas, uma espécie de correção de rota. Por alguns dias, o País se olha no espelho e enxerga outra imagem de si mesmo. Menos caricatura, mais potência.

E, claro, existe o detalhe que torna tudo ainda mais Brasil (e que talvez os gringos nunca consigam entender em sua devida complexidade): todo esse reconhecimento embalado em festa hollywoodiana encosta no nosso Carnaval.

Em qualquer outro lugar, a temporada de premiação talvez termine no tapete vermelho e no dia seguinte. Mas no Brasil, ela vira fantasia, bloco, comentário em mesa de bar, assunto de família, discussão em grupo de WhatsApp, homenagem improvisada. A gente tem essa habilidade meio rara de puxar cultura para a rua, de transformar pauta em rito coletivo. A matéria percebe isso, e é um acerto.

No fim, o texto sugere uma ideia provocadora: para muita gente no Brasil, o Oscar começou a ocupar um lugar simbólico que já foi quase exclusivo do futebol, e a gente bem sabe que isso não é exagero.

Não porque o cinema “substituiu” o futebol, o que seria simplificar demais. Mas porque o cinema passou a oferecer uma outra arena de orgulho (sem falar em Bruno Pinheiro, no esqui, e João Fonseca no Tênis). Outra forma de se ver grande, outra chance de o Brasil aparecer não como cenário exótico, mas como autor da própria narrativa.

Talvez seja isso que, no fundo, esteja acontecendo.

Não, não é só torcida por estatuetas.

É um país experimentando um novo jeito de entrar em cena.

E entrando sem pedir desculpa.


Recife: um guia para curtir as locações de O Agente Secreto

Se o Oscar, neste ano de 2026, passa pelo Brasil, passa também por território. E território, a gente sabe, tem endereço. Como estamos em um site de viagens, faz sentido sair do feed da Academia e ir para o chão onde algumas dessas histórias respiram. No caso de O agente Secreto, o Recife. No perfil da UNQUIET (aliás, você já está seguindo?), preparamos um roteiro para viver a cidade além da tela (menos tapete vermelho, mais rua, mais mar, mais memória).

Ali estão o casario histórico da Rua da Aurora, o teto ornamentado do Cinema São Luiz,  a escala monumental do concreto modernista da Avenida Guararapes, o Parque 13 de Maio e muitas outras locações do filme.

Clique sobre a imagem e dê uma conferida nas dicas.

A New Yorker e o Brasil no Oscar
Reprodução | Instagram @revistaunquiet
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A New Yorker e o Brasil no Oscar
Jornalista e consultora nas áreas de gastronomia e viagem, não recusa uma taça de um bom Syrah. Editora de Estilo da revista ISTOÉ Dinheiro, foi diretora de redação da revista WINE, crítica de restaurantes da revista Playboy, repórter e apresentadora na Rede Globo São Paulo e TV Cultura.
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